LUA
CHEIA DE ESCORPIÃO O
OITAVO TRABALHO DE HÉRCULES NOTA-CHAVE:
EU SOU GUERREIRO E DA BATALHA EU SAIO TRIUNFANTE
Novamente o Discípulo Hércules postou-se diante do Mestre preparado
para mais um Trabalho. Deveria passar pelo Oitavo Portal. Disse-lhe o Mestre que
no pântano de Lerna morava um monstro que tinha nove cabeças, chamado
Hidra, que constituía uma verdadeira maldição para a região.
"Prepare-se para destruí-lo", disse. "Das nove cabeças
que possui, uma é imortal, mas as demais, assim que cortadas, dão
lugar a outras duas. Os meios usuais de combate não serão suficientes
para levar a tarefa a bom termo. Reflita no seguinte: - subimos ajoelhando-nos,
vencemos cedendo e ganhamos renunciando". Acercando-se
do pântano, o Herói teve que deter-se tal era o mau odor que exalava.
Percebeu que o solo era movediço. Sabia que a Hidra estava em uma caverna
escura e de lá não saía. Hércules recorreu a um estratagema.
Atirou flechas incendiadas para dentro da cova que obrigaram-na a sair. Ela
saiu encolerizada com aquele que ousava perturbá-la. Suas bocas lançavam
chamas, e tentava enrolar Hércules pelos pés com sua cauda escamosa.
Ele esquivou-se e logrou cortar uma de suas cabeças. Tão logo essa
horrível cabeça caiu no pântano, imediatamente surgiram duas
outras no lugar. Outras e outras vezes tentou Hércules, porém a
cada assalto a fera retornava mais forte. O
Discípulo lembrou-se das lições que seu Mestre lhe havia
conferido - sendo filho de Deus, também era filho do Homem. "Ajoelhando
nos elevamos". Deixou de lado suas armas, ajoelhou-se e enfrentou a Hidra,
logrando erguê-la ao alto apenas com suas mãos. O animal, sem o apoio
da terra, não suportando a luz do sol e o ar livre, foi perdendo suas forças.
Na verdade toda sua brutalidade lhe era concedida pela escuridão e pelo
charco. A batalha, enfim, tornou-se vitoriosa para o Discípulo. As nove
cabeças da fera caíram inertes, com suas bocas e olhos sem vida.
Apenas aquela que era imortal mantinha-se alerta, mas sem condições
de rebelar-se. Hércules cortou-a com admiração. Não
obstante, seu sibilos e ferocidade continuaram mesmo após ter sido aprisionada
debaixo de uma pedra. Hércules,
sentindo-se vitorioso, apresentou-se ao Mestre que reconheceu: - Estás
iluminado pelo brilho do Oitavo Portal.
A
LIÇÃO
Hércules é
cada um de nós mesmos. A própria Hidra está em cada um de
nós, devendo ser vencida. Mais uma vez chama-se a atenção
ao fato de que é a nossa Hidra que deve ser dominada, não aquela
do nosso semelhante. Nos
mitos encontramos lições para nossas próprias vidas e devemos
nos identificar com o herói. Os animais quase sempre representam alguma
faceta negativa e não trabalhada de nossa personalidade. Os encontros são
sempre com pessoas que igualmente representam aspectos de nós mesmos, tanto
positivos quanto negativos. Os acasalamentos são incorporações
de virtudes ou defeitos. As mortes representam defeitos que se foram, ou tipos
que devem ser afastados de nossas vidas. Quando o herói do mito mata alguém
que não deveria morrer, significa que sufocamos alguma virtude. As armas
usadas contra os vilões são qualidades específicas com as
quais devemos trabalhar nossas tendências ou defeitos. Nesse
trabalho, Hércules enfrentou um monstro que possuia nove cabeças,
sendo uma imortal, e vivia numa caverna escura. A fera foi vencida quando Hércules
ajoelhou-se no chão e elevou-a, expondo-a à luz do Sol e ao ar livre.
Nesse caso, devemos decodificar cada um dos elementos integrantes da façanha
para reconhecermos a lição. Atenção
especial deve ser dada ao fato dela ter nove cabeças, pois o mal maior
deve ser procurado em nossa própria cabeça. Nessa existe apenas
o cérebro localizado na caverna dos ossos cranianos. Ou seja, o trabalho
é mental. Em nossa mente é que devemos procurar as nove cabeças
da Hidra. O fato
do monstro estar escondido numa caverna revela que, em nós, a encontraremos
em nossa própria mente inconsciente. Aquela parte da nossa mente que guarda
tudo que criamos, que assimilamos. É aquela parte de nós que não
queremos reconhecer e que, todavia, direciona nossas atividades sem que nos demos
conta. O charco do ambiente é bem aquele que a psicologia ensina existir
nas cavernas do inconsciente. O
número nove, místico por excelência, neste caso deve ser decomposto
em três vezes três. O lado negativo do ternário, multiplicado
por si próprio. O ternário aqui é dos nossos corpos inferiores.
Usualmente dizemos que são quatro, pois, na verdade, distinguimos o corpo
físico em denso e etérico, mas é sempre o corpo físico.
Os três defeitos desse corpo são: a preguiça, o sexo e a ganância
pelos bens materiais. O
segundo ternário do nosso corpo emocional apresenta os vícios do
temor, da ira e do ciúme. O terceiro é relativo ao nosso corpo mental
e tem os vícios da negatividade, do orgulho, da crueldade e da vaidade.
Finalmente devemos
considerar a cabeça imortal. Qual delas será? O mito, como sempre,
apresenta várias versões. Uma delas deixa muito claro que, na realidade,
existia uma cabeça a mais, a imortal. O que aqui entendemos é que
a cabeça imortal nada mais era que o somatório das cabeças
individualizadas. Era a própria Hidra considerada como um todo, não
apenas como um ser com várias facetas como vasos estanques. Ela era a Hidra
no conjunto. Assim é que entendemos a cabeça imortal. O
mito conta que as nove cabeças ao serem mortas pela Luz e pelo ar, Hércules
decepou a imortal, aquela que rebelou-se contra a separação e perda.
Pelo teor da informação, o sepultamento em baixo de uma pedra pesada
significa o êxito definitivo em relação a tudo de negativo
que ela representava, que nada mais era que tudo aquilo que cada uma individualizadamente
oferecia. A lição
de Escorpião é muito grande, difícil e pesada. Nos ensinamentos
dos Mestres existe a recomendação de que devemos trabalhar separadamente
cada um de nossos corpos inferiores. De
qualquer forma, o Mito revela a forma única que deve ser empregada para
vencer todos os defeitos juntos ou separados. O ato de ajoelhar-se representa
a coragem do reconhecimento de nossa insignificância perante as coisas maiores.
A humildade verdadeira que faz o Homem dobrar-se à luz, reverenciando a
mãe terra. Das três exortações feitas pelo Mestre,
o mito realça aquela do ato de ajoelhar-se. Passa, apenas subentendido,
a vitória pela concessão e o ganho pela renúncia. É
que o ato de colocar os joelhos na terra encerra tudo, e mais alguma coisa, se
ele realmente é feito pela Alma. Dobrou-se a personalidade que renunciou
a si mesma, voltando-se para a Luz. Os
defeitos residentes na Mente, ainda que relativos a cada um dos corpos inferiores,
não podem ser resolvidos mediante batalhas, tampouco pela força.
A personalidade, depondo as armas, reconhece que somente a luz e o alento é
que devem prevalecer. Na posição em que se colocou Hércules,
não há lugar para o orgulho, a separatividade, a crueldade, nem
a luxúria. Existe apenas a alma e os dois atributos da divindade: a Luz
e o Ar, sendo este considerado como o Sopro Divino. O mesmo que, figurativamente,
o Gênese ensina que Deus tomou o barro, fez um boneco e soprou seu alento.
Como tudo tem sua
contraparte, da mesma forma como as moedas, a cada um dos defeitos deveria corresponder
uma virtude. Essas, no mito, são representadas pela atitude de Hércules.
A deposição das armas, como uma forma de não lutar, é
uma atitude própria do corpo físico. O ato de ajoelhar-se é
atitude específica do corpo emocional. E o erguer os braços para
cima da cabeça, significa que o mental foi abandonado. Os
nove defeitos indicados podem sofrer variações, mas basicamente
significa que a cada vitória alcançada em relação
ao defeito de cada um dos corpos ainda existem outras duas. Entretanto elas podem
multiplicar-se, já que o mito conta que cada vez que uma cabeça
era cortada outras duas surgiam em seu lugar. O
fato de existir uma cabeça imortal talvez seja a mais singular das colocações.
Seu sepultamento embaixo de uma pedra nos leva a conjeturar o que significaria
essa pedra. Poderia ela ser removida por nós próprios? Por outrem?
As respostas só
podem ser negativas. Por outros jamais, haja vista que o trabalho é essencialmente
pessoal. Por nós também não, já que houve êxito
em relação a todas as cabeças. Assim, a única resposta
plausível à indagação do significado da pedra, é
que se trata da nossa própria vontade que se manifesta nos três níveis:
físico, emocional e mental. Quando
o Homem finalmente vence todos os seus instintos inferiores e ocultos, indicados
como nove, mas com possibilidade de multiplicar-se até que a verdadeira
atitude seja tomada, é porque venceu a si mesmo, não pela força,
mas pela vontade. Aquela vontade que os Mestres colocam como a qualidade de Hércules
já elevado ao Panteão dos Deuses. O
trabalho realizado por Hércules com a Hidra nos revela aquilo que diuturnamente
devemos fazer. Apresenta ele temas variados para nossas meditações
diárias.
Bibliografia:
Meditação nos Plenilúnios - Hércules Editora Ltda.
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